Roberto Magalhães - Figura 1 - Serigrafia - 35 x 25cm
| Artista | Roberto Magalhães |
| Nome da Obra | Figura 1 |
| Técnica | Serigrafia |
| Medida | 35 x 25 cm |
| Tiragem | x / 110 |
| Assinatura | ACID - assinado no canto inferior direito * |
Magalhães, Roberto (1940)
Biografia
Roberto de Oliveira Magalhães (Rio de Janeiro RJ 1940). Pintor, desenhista gravador. Realiza seu aprendizado artístico com as atividades profissionais iniciadas precocemente: primeiro, na gráfica do tio (desenho de rótulos e propagandas); em seguida, fazendo capas de livros e discos e desenhos publicitários. Freqüenta cursos da Escola Nacional de Belas Artes - Enba, como aluno livre, em 1961. No decorrer da década de 1960, participa de diversas coletivas, no Brasil e no exterior: 1962, expõe desenhos a nanquim na Galeria Macunaíma, anexa à Enba; em 1964, realiza sua primeira individual de xilogravuras, na Petite Galerie, Rio de Janeiro; e recebe, no ano seguinte, o prêmio de gravura da 4ª Bienal de Paris. Segue para a capital francesa, em 1967, depois de ganhar o prêmio viagem ao exterior no 15º Salão Nacional de Arte Moderna - SNAM, em 1966, com a xilogravura Édipo Decifra o Enigma da Esfinge. Em Paris expõe com Antonio Dias na Galeria Debret, em 1968. Estudos de ocultismo, teosofia e, sobretudo, a aproximação ao budismo a partir de 1969 levam-no a residir por quatro anos no Centro de Meditação da Sociedade Budista do Brasil, quando interrompe a atividade artística. Em 1975, recomeça o trabalho com arte por meio de exposições individuais de desenho e pintura no Rio e em São Paulo, e de aulas no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - MAM/RJ. Integra coletivas de gravuras e desenhos, na década de 1980. Em 1992, o Centro Cultural Banco do Brasil - CCBB, do Rio de Janeiro organiza uma retrospectiva dos 30 anos de produção do artista, a maior dedicada a sua obra. Atualizado em 18/08/2009 –
Comentário crítico
Mesmo afinado com as novas figurações que vêm a público em mostras como Opinião 65 e Nova Objetividade Brasileira, Roberto Magalhães constrói um percurso próprio, não se ligando a grupos nem a movimentos. O trânsito permanente por diferentes técnicas (lápis de cor, bico-de-pena, aquarela, litografia, xilogravura e pintura a óleo) e um repertório temático particular dificultam sua localização em tendências ou escolas. De qualquer modo, os críticos falam em "experimentos surrealistas", próximos aos de Salvador Dalí, e em afinidades de sua obra com as composições simbólicas de Arcimboldo, com o imaginário infantil de Paul Klee e ainda com as "esculturas moles" de Claes Oldenburg. Magalhães enfatiza sua proximidade com a experiência mística e com o esoterismo, na tentativa de aproximação entre arte, ciência e filosofia. A "arte esotérica", diz ele, além de realizada sob "inspiração verdadeira", acredita na existência de uma afinidade essencial entre formas e cores, visando projetar, por meio de imagens, "verdades eternas".
O realismo fantástico explorado nos anos 1960 como em Barco Voador Conduzindo um Esqueleto, 1962, convive com ampla gama de símbolos e alegorias trabalhados nos anos 1970, sob inspiração de tratados de esoterismo e alquimia, livros de ocultismo e de astrologia - Capricórnio, 1970 e A Pedra Filosofal, 1973. O mergulho existencial efetuado nesse período alarga as pesquisas com a cor e com a forma, consideradas frutos de uma operação alquímica, em Ministro do Inferno, 1975 e Homem Devidamente Pintado, 1976. Nesses trabalhos, já se encontram presentes elementos emblemáticos de sua obra: deformação da figura; antropomorfização da natureza; metamorfoses de todo tipo (montanhas-pássaros, animais fantásticos, narizes que realizam acrobacias, máquinas e construções humanizadas, casas-carros etc.). Tais elementos integram composições marcadas pelo humor - às vezes, negro -, em que o artista associa a exploração da memória infantil e do universo onírico a elementos insólitos retirados do cotidiano e da observação detida das cidades. Central do Brasil, 1983, 10º Planeta, 1986, e Segunda-Feira, 1994, são algumas dessas paisagens inusitadas. Homens-máquinas, seres monstruosos ou simples personagens de historietas infantis são outras de suas criações conhecidas, vistas em Mulher do Futuro, 1975, Gigante Examinando uma Casa, 1988 e Habitante da Lua, 1994. A localização de distintas fases na obra de Magalhães não impede a identificação de um estilo pessoal construído, desde o início, em estreito diálogo com as técnicas e temáticas da ilustração, das histórias em quadrinhos e das caricaturas. Atualizado em 01/12/2008
Críticas
"Desse quase-grupo formado por Antonio Dias, Carlos Vergara, Roberto Magalhães e Rubens Gerchman - cuja atividade se iniciou no Rio logo ao abrir-se a década de 1960 e cujas afinidades se concentraram, naquele momento, na retomada da figuração, sob envolvência crítica de certa mescla de surrealismo, realismo mágico e pop-art - talvez tenha sido Roberto Magalhães o que mais permaneceu interessado em desenvolver, tranquila e consistentemente, passo a passo, um mesmo núcleo de problemas de forma e conteúdo desde logo situados. Se Dias e Gerchman, após a Nova Objetividade Brasileira e a fixação no exterior, se voltaram para o âmbito do conceitual, embora sempre no plano crítico de contemporaneidade, e se Vergara multiplicou pesquisas com materiais pobres ou nobres, interessando-se também pela participação direta do espectador na proposta-obra, Magalhães nada mais desejou, ao longo de uma década e pouco de trabalho, especialmente desenho e gravura, e agora em pintura, do que desdobrar sua propensão natural para o fantástico ('Arte é um poder mágico e só os magos têm acesso a ela' ou 'Arte é apalpar a Divindade', segundo palavras dele próprio), (...)"
Roberto Pontual
PONTUAL, Roberto. Arte/Brasil/hoje: 50 anos depois. São Paulo: Collectio, 1973.
"O que hoje Roberto Magalhães oferece como pinturas são delicadas surpresas visuais, licenças poéticas com cenas do cotidiano e mudanças na escala do mundo. Há uma doce ironia e uma nostálgica reflexão sobre o poder e a força, sobre as leis do universo e sobre a hierarquia das formas - pois o que mais lhe dá prazer é inverter as regras e as normas de representação da natureza. (...) Nos trabalhos mais recentes, ele deixou de lado o caráter alegórico de suas cenas para concentrar-se em cabeças humanas ou em cenas de um fantástico cotidiano. Suas casas se retorcem, flores e bichos ganham uma estranha aparência, as descrições da mais banal atividade crescem para uma outra dimensão. O que lhe confere uma dimensão de artista excepcional é que as suas escolhas são muito precisas. As personagens se deformam como em vinhetas antigas, estão cercadas de elementos alucinantes, mas toda essa parafernália é rigidamente controlada. Existe uma organização geométrica do espaço e a alteração das leis da visão com a segurança de quem sabe exatamente o que pretende causar. Graças a esse controle é que Roberto Magalhães conseguiu, ao longo de 25 anos de trabalho, manter-se ao largo de uma filiação ou de uma identidade com uma tendência artística qualquer. (...)"
Casimiro Xavier de Mendonça
SÃO Paulo - Rio - Paris. Apresentação de Marie-Odile Briot. Textos de Isaac Ortizar et al. São Paulo: Montesanti Galleria, 1987.
"(...) Roberto Magalhães interpreta a exatidão de sua xilogravura de modo tátil, pois também acaricia a madeira, afastando-se dos conceitos do, como diz, 'expressionismo', poderoso no início do decênio de 60. Introduzido na figuração por outro viés, o da publicidade, não é contudo o gibi que está no horizonte de suas figuras, o que também acontece com suas pinturas e desenhos. Pelo contrário, valorizando o recorte na xilogravura, antecipa as histórias em quadrinhos que adotam o mesmo partido das figuras chapadas e recortadas. Estas produzem o mesmo riso que, no início dos anos 60, se solta das gravuras de Roberto Magalhães, cujos desenhos simulam, porém, claro-escuro e relevo, distanciando-se das xilos. O humor na gravura da queda de Tróia evidencia os procedimentos retórico-gráficos que o produzem. O célebre auto-retrato falando cospe de lado a fala, mas, ausente balão, relaciona-se com o gibi de modo incerto e com o anjo de Anunciação de Simone Martini de modo certíssimo, apesar da diferença dos gêneros. O artista-personagem, que assim se pronuncia, é concebido, como os figurantes de Tróia, como misto, assim, como agregação de seres heterogêneos.
Valorizando a citação, Roberto Magalhães nem segue estilemas pop, nem analisa ou descreve o cenário da cena, a qual, reduzida à ação das personagens, se produz como comédia, erudita nos lances retóricos em que joga a ambigüidade de partes e todo, mas também a justaposição em mistos. As xilogravuras dos anos 60 podem encenar; como se viu, a dimensão épica da tomada de Tróia, com seu cavalo reptiliano, seus corpos articulados mecanicamente e, tudo no plano, ausente claro-escuro, como jogo de recortes agressivamente geometrizados. O humor, em Roberto Magalhães, é paródico, textualmente; é-o, também, graficamente, nas cargas ineptas das figuras enrijecidas por rebites e soltas porque estes nada fixam. O inverossímil dos corpos em outros gêneros expõe-se como verossímil satírico em Roberto Magalhães".
Leon Kossovitch e Mayra Laudanna
GRAVURA: arte brasileira do século XX. Apresentação Ricardo Ribenboim; texto Leon Kossovitch, Mayra Laudanna, Ricardo Resende; design Rodney Schunck, Ricardo Ribenboim; fotografia da capa Romulo Fialdini. São Paulo: Itaú Cultural: Cosac & Naify, 2000, p. 8.
Fonte: Itaú Cultural
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